Há uns anos, quando fazia pesquisa para um trabalho sobre o "Cordeiro Místico" de Josefa d’Óbidos, não sei como vieram-me parar às mãos, uns estudos/desenhos do sec.XIX; eram a preto e branco, corpos de velhos nus e esquálidos, vergados, vencidos. Não sei se seriam de facto estas as imagens, mas foi o que guardei e de vez em quando lembro-me. Na altura impressionou-me, porque condenados, submissos, lembraram-me o Cordeiro de Josefa, ou qualquer outro, assim condenado.
Odeio a condenação e odeio sobretudo quando os condenados sabem que já não há nada a fazer, e ficam assim farrapos à espera.
Por uma questão de pudor, sai do quarto quando tentavam colocá-lo com alguma segurança no meio da cama, já que a tendência era resvalar para o chão, onde ficaria quase inerte o tempo que fosse necessário, até que alguém o soerguesse. Não havia ali uma réstia de dignidade e ele tinha tentado mantê-la o mais possível. Até aí a vaidade fora a sua salvação A posição era fetal, o resto de decrepitude e miséria física, inenarrável, confrangedora.
Pensei: as contas devem estar saldadas até ao último tostão.
E assim foi, mesmo até ao último tostão, não deve ter ficado nada, absolutamente nada para saldar. Tudo contabilizado! Deus ou o Supremo Arquitecto, como lhe queiram chamar, não brinca.
Deus tenha piedade de nós!
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