quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

Lost in translation ou o Fim da Aventura ou simplesmente o Fim




Conduzia apressadamente pela 2.ª Circular, a meta era atingir o Centro Comercial, onde ficaram de se encontrar. Ela juntava o útil ao útil. Antes da ginástica encontrá-lo-ia por breves minutos. Ele estava entre uma viagem e outra. Ela estava no fim de uma viagem, mas queria ter a certeza absoluta que nunca mais escolheria aquele destino e sobretudo que não lhe restaria nenhuma nostalgia que derivasse em fantasia. A vida ensinou-lhe através de saber de experiência feito, que a expectativa é muito mais nociva que construtiva.
O ponto de encontro era ao pé da cascata. O tempo urgia. Engarrafamentos, acidentes, recordaram-lhe uma cena magistral de "Lost in Translation", só isso! Estacionada a viatura ainda um caminho a percorrer. Acelerou. Não era movida por nenhum sentimento, tinha consciência disso. Era movida por uma necessidade premente de se saber livre.
Chegou à cascata, não o viu. Pensou: bazou! Ligou-lhe, mas ele estava na outra cascata ao pé da escada rolante, no largo da árvore de Natal. Por entre a turba, chegou. Os minutos entretanto, tinham ficado mais escassos. Ele de costas olhava expectante para a escada. Tocou-lhe ao de leve nas costas enquanto proferia o seu nome, monossilábico. Ele voltou-se. Estava giro. Ela já calculava. Quando se regressa de férias vem-se sempre imbuído de uma certa aura. Temos tempo para um cigarro. Ele disse-lhe primeiro que ela estava muito tia, depois que estava muito gira, e depois,mais uma, duas, três vezes que estava muito gira. Ela respondeu que andava a fazer por isso. Ele ficou um pouco atónito.
A conversa foi para lá do cigarro. Ela levou-o à praça de táxis e não o viu entrar nem partir Nenhuma nostalgia. Um enorme bem-estar. Uma confiança renovada, uma energia de quem se sabe e a quem lhe sabe bem sentir-se livre, renovada, talvez também ela imbuída de uma certa aura, talvez aquela que suscitou os comentários que lhe foram indiferentes.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Guilherme Tell

Lia despreocupadamente o jornal, preparando-me para uma grande seca, no consultório médico, o que de facto não aconteceu.
De repente à minha frente alguém me tratava pelo nome próprio e por um de família, com afecto, alegria e familiaridade, como se me conhecesse de sempre e eu a ela. Fiquei divertida e surpreendida. A voz, ou melhor dizendo a maneira de falar não me era estranha, mas mais nada. Eu continuava na minha pesquisa interior e ela continuava a tratar-me com mimo, e a falar-me do tempo em que fomos colegas, do tipo de proximidade que tínhamos, dizendo-me que me punha gotas nos olhos, o que para mim hoje seria impensável que alguém o fizesse. Fui-me lembrando aos bocadinhos, mas o que me surpreende sobretudo são as boas lembranças de algumas colegas que me reconhecem. Esta, hoje disse-me que sou uma das pessoas que recorda com saudade, que eu era uma pessoa muito alegre e extrovertida. Foi uma conversa gira, sem os cuidados que hoje se põe em tudo.
Não há muito tempo, encontrei outra que me tratou da mesma forma, cheia de recordações, que tinha estado a falar de mim na véspera. E eu não me conseguia lembrar do seu nome. Outra ainda no foyer do São Jorge disse-me: "pensavas que passavas por mim e que eu não te vinha falar?", dito de uma forma cheia de simpatia. São sem dúvida óptimas surpresas. Mas são também ocasiões em que sinto saudades de mim. O riso era fácil, sem ser idiota, havia ingenuidade, crença, sei lá!
Nessa altura havia um palavrão que dizia com frequência e com certeza com piada, tal era a minha forma despreocupada de ser. Diziam-me: " já sei que gosta muito de dizer..."
Ainda guardo uma cassete com várias músicas que um colega, com quem tinha conversas de homem p’ra homem, me gravou. Na introdução, uma voz cavernosa em eco, por causa de uma brincadeira sobre Guilherme Tell, diz; “maçãzinha, maçãzinha gostosinha…”. Bons tempos!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

o factor humano

Vais acabar sozinha. Disse-me mais com ar de ameaça do que premonitório. Acho que é a única coisa de que me lembro do meu ex-marido. Há tempos alguém me falava dele e eu sinceramente já nem me lembrava.
Não tenho por hábito reviver o passado, nem as coisas boas nem as más. Tudo tem um tempo, e as coisas são boas ou más conforme as vivemos. Depois vistas a outra luz, talvez já não fosse bem assim. Inexplicavelmente sou uma mulher do tipo "pr’a frente é que é caminho". O passado é emperrador.
A ameaça do ex cada vez mais me soa a bênção. Cada vez mais me mostra e me abre a porta para não contrariar a minha natureza. E a minha natureza é por mais que eu não queira uma natureza de ruptura, de solidão, e como tudo na vida, é uma questão de hábito. Muitas vezes pergunto-me como seria a minha vida se assim não fosse. E prefiro a ruptura, é pelo menos uma forma límpida de se viver, sem equívocos, porque não sendo pessimista e tendo vivido muito, ainda não se me deparou ninguém, independentemente da escala de proximidade/afectividade que mereça aquilo que defino como amizade, amor, entrega. Salvo uma raríssima excepção. Tudo isto me vai dando uma grande serenidade, sobretudo a certeza de que acima de tudo não devo contrariar a minha natureza, e sem complexos de culpa..

domingo, 7 de dezembro de 2008

overdose

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

o lado lunar

Não se lhe pode dizer nada que fica crispado(a). Falar dá trabalho. Discutir ideias diferentes dá polémica dá trabalho, obriga a falar, a pensar, a articular, a ter cuidado com as palavras, a ter de ser politica e socialmente correcto, etc. Enfim conviver dá muito trabalho, privar com o próximo é um risco.
Antes animava-me imenso em vir aqui. Tinha e tenho os Favoritos cheios de blogs da minha eleição. Visitava-os vezes sem conta. Como não podia deixar de ser numa relação de proximidade tinha por eles amor e ódio, mas não passava sem eles, eram, são todos excelentes.
Hoje venho aqui um pouco para não perder a prática de escrever algo diferente, faço-o com alguns pruridos, pois ninguém tem nada a ver com o que penso ou sinto, e podem ser levados a pensar que me conhecem, ou tirar ilações a meu respeito. Os meus Favoritos, visito-os um pouco por obrigação, e de todos só dois ou três, pois sinto que ali ainda está um pouco da minha alma, cada vez mais minguada. Quero resistir à apatia que se está a apoderar de tudo e de todos e de mim. Quero resistir ao vácuo, à indiferença, mas sinto que caminho a passos largos para aí e de certa forma estou-me nas tintas, sobretudo se for mais confortável e parece-me que é.
Poema vernáculo ou de desamor
Também pode ser, e é uma ordinarice

Assim, sendo:

O amor é uma cobiça
Entra pelos olhos e
Sai pela piça