sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Guilherme Tell

Lia despreocupadamente o jornal, preparando-me para uma grande seca, no consultório médico, o que de facto não aconteceu.
De repente à minha frente alguém me tratava pelo nome próprio e por um de família, com afecto, alegria e familiaridade, como se me conhecesse de sempre e eu a ela. Fiquei divertida e surpreendida. A voz, ou melhor dizendo a maneira de falar não me era estranha, mas mais nada. Eu continuava na minha pesquisa interior e ela continuava a tratar-me com mimo, e a falar-me do tempo em que fomos colegas, do tipo de proximidade que tínhamos, dizendo-me que me punha gotas nos olhos, o que para mim hoje seria impensável que alguém o fizesse. Fui-me lembrando aos bocadinhos, mas o que me surpreende sobretudo são as boas lembranças de algumas colegas que me reconhecem. Esta, hoje disse-me que sou uma das pessoas que recorda com saudade, que eu era uma pessoa muito alegre e extrovertida. Foi uma conversa gira, sem os cuidados que hoje se põe em tudo.
Não há muito tempo, encontrei outra que me tratou da mesma forma, cheia de recordações, que tinha estado a falar de mim na véspera. E eu não me conseguia lembrar do seu nome. Outra ainda no foyer do São Jorge disse-me: "pensavas que passavas por mim e que eu não te vinha falar?", dito de uma forma cheia de simpatia. São sem dúvida óptimas surpresas. Mas são também ocasiões em que sinto saudades de mim. O riso era fácil, sem ser idiota, havia ingenuidade, crença, sei lá!
Nessa altura havia um palavrão que dizia com frequência e com certeza com piada, tal era a minha forma despreocupada de ser. Diziam-me: " já sei que gosta muito de dizer..."
Ainda guardo uma cassete com várias músicas que um colega, com quem tinha conversas de homem p’ra homem, me gravou. Na introdução, uma voz cavernosa em eco, por causa de uma brincadeira sobre Guilherme Tell, diz; “maçãzinha, maçãzinha gostosinha…”. Bons tempos!

Sem comentários: